segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Ela uma vez acreditou
Em toda história que ele tinha pra contar
Algum dia ela endureceu
E tomou o outro caminho

Olhares vazios
De cada canto da cela de prisão compartilhada
Uma acabou de escapar...
Outro foi deixado dentro do poço
E ele que se esquece
Estará destinado a se lembrar!

.

Ela não o quer
Ela não vai alimentá-lo
Depois que ele (e ela) tiver voado pra longe...

Indiferença

Eu vou acender um fósforo essa manhã
Que assim não me sentirei sozinha
Observando como ele jaz silencioso
Para logo ir embora
Eu manterei meus braços esticados
Fingindo que sou livre pra vagar
Eu farei meu caminho pra sobreviver em mais um dia no... inferno.

Quanta diferença isso faz?

Eu vou segurar a vela
Até ela queimar minhas mãos
Eu continuarei levando socos
Até que eles fiquem mais fracos
Eu vou encarar o pôr-do-sol
Até meus olhos ficarem cegos
Eu não mudarei minha posição
E não mudarei de ideia

Quanta diferença isso faz?

Eu vou engolir veneno
Até ficar imune
Eu vou gritar minhas tripas pra fora
Até encher esse quarto

Quanta diferença isso faz?

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Perder

Perdi meu medo de ser abandonada. Pelo menos o medo de ser abandonada por você.
Perdi porque já fui. A gente não tem mais medo do que já aconteceu quando finalmente percebe que é perfeitamente capaz de sobreviver a isso.
Perdi você há muito tempo. Nunca te tive já que, na prática, é impossível ter alguém. Perdi a crença de que já esteve ao meu lado... o quê, afinal, dá no mesmo.
Perdi a paz, perdi o sono, perdi alguns cafés da manhã e almoços.
Achei que tinha me perdido, mas estava enganada. Me encontrei como nunca.

Mas perder os vícios, isso é mais complicado. Ainda sofro com a vontade de fumar e sei que se colocar um cigarro na boca, a dificuldade de largá-lo depois será ainda maior. Ainda escuto músicas tristes quando fico abalada, mesmo sabendo que isso só me deprimirá. A nossa relação funciona da mesma forma... te coloco no repeat, te fumo de novo e de novo. "O último trago" me prometo.

Perder contato com você me faria um bem danado. Mas me saboto com fantasias: "mas e se ele aprender a ser um bom pai?", "se eu estiver exagerando e, no futuro, minha filha tenha mais orgulho do genitor do que decepções?", "se ele descobrir como amar e ser amado? Não quero tirar dela a possibilidade de ser amada...". Mas quais as chances? E então me lembro que eu - E ELA - temos muito a perder. Por que arriscar meu bem estar, coisa tão necessária nesse momento, pra que, hipoteticamente, você entenda como não machucar quem está a sua volta?
Faço e refaço esse questionamento. Cedo e endureço ciclicamente.

Perdi meu medo. De ser eu mesma, de acreditar no que acredito e até de amar sem ser amada. Mas isso não me livrou de outros medos que circunstancialmente nasceram. E, talvez, eu só os perca quando me livrar de mais alguma coisa... o quê estou disposta a perder no momento?

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Não tenho uma natureza boa. Nem ao menos acredito que isso exista. Quando faço bem, faço porque acredito ser o melhor. Pra mim. Pra quem eu gosto. Pra alguém que, em um momento qualquer, me faz crer que a minha gentileza pode gerar algo harmonioso a minha volta.
E por ser boa ser uma escolha, pelo menos pra mim, tal coisa só acontece quando eu quero. Quando eu acredito que existirá algum resultado bom em ser boa. Mesmo que esse resultado seja apenas o evitar de algo ruim.
Fazer algo mau também segue a mesma lógica. Escolho fazê-lo quando acredito que a coisa boa a ser feita gera consequências ruins. Às vezes devemos fazer algo ruim pra evitar outra coisa ruim. Isso é tão óbvio que chega a ser infantil.

Hoje, com aquela ligação, acreditei que poderia fazer algo bom. Com o choque de uma morte próxima, acho que é normal ficar mais sensível aos não-fechamentos. Queria poder dizer que, se fosse o caso de nunca mais nos encontrarmos, eu estaria muito mais feliz sabendo que quem eu gosto está feliz.
Isso não foi possível. Sua nuvem negra impossibilitou qualquer gesto de carinho. E mesmo aumentando a mágoa momentânea, afirmo que não me arrependo, nem de ter te ligado agora e nem de ter te machucado no passado. Talvez porque, quando te vejo assim, asquerosamente burro, sinto menos saudade, o que é bom. Ou talvez porque precisasse também descarregar um pouco da raiva, coisa que só é possível quando você me ataca dessa forma.
Quando me pede afeto, amoleço logo, evito alimentar a dor que me causou, me recuso a impor distância. Mas nos momentos de brutalidade não, nesses eu me permito vomitar tudo que você me fez engolir. Lembro-me com clareza de cada lágrima que a sua falta de noção de amor me fez derramar, e elas ficam pesadas e rígidas, quase como se eu pudesse afiá-las, usando como armas pra matar tudo que você um dia representou.

Em momentos assim sinto nojo de você. Nojo das suas expressões cruéis, das suas justificativas, da sua cegueira patológica, do seu egoísmo. Nojo da carne que entreguei pra você, que envolvia sentimentos tão genuínos. Nojo da sua falta de confiança perante toda fé que depositei em nós dois.

Não tenho a natureza boa e nem má. Nem você. Mas me responsabilizo pelos meus atos, que, apesar de serem também respostas às suas inconstâncias destruidoras, foram deliberados e refletidos. E posso dizer que sinto pena da sua completa incapacidade de fazer o mesmo. Pena da sua solidão e da sua escolha por abraçá-la.
Eu continuarei sendo boa quando eu quero. Porque sei que estou apta a fazer isso. E você não. Provavelmente você ainda terá um longo caminho de descobertas até isso.

sábado, 18 de maio de 2013

Dama-da-noite seria só uma flor se não exalasse a solidão e tudo que temi por tanto tempo. Seria uma planta talvez bonita e agradável para mim caso tudo que ela me lembrasse não fosse exatamente o que tento esquecer.
Já fazem alguns meses que não sei o que é solidão. Estou sempre acompanhada das pessoas importantes - minha filha e eu.
Mas há alguns segundos senti em minhas narinas aquele desespero de novo. Eu estou aqui, não há o que temer... então por que esse odor tenta me convencer de que isso não é o suficiente?

Você não está. Nunca esteve. E daí?

sábado, 4 de maio de 2013

Enfim, eu não preciso de você.

Choro agora, não pela dor, mas pelo gosto das lágrimas.
O mundo não desaba, o chão não se abre, eu não caio. Continuo aqui, como sempre deveria estar.
Leio coisas tristes que me aliviam da minha própria mágoa, como se come aquela fruta na sobremesa pra não se empanturrar de chocolate. Faz sentido e surte efeito. Provavelmente a vontade de açúcar não esteja tão grande nesse agora exato...

***

Você queria que eu precisasse de você. Acho que sente falta do quanto eu de fato precisei. Nada poderia ser mais egoísta da sua parte... e eu não esperaria coisa diferente.
Gostaria que entendesse que precisar de alguém não é algo positivo. Todo o meu ciúme, os meus descontroles, a minha raiva, tudo isso veio da nossa relação doentia, que começou a partir do momento que precisamos um do outro. O amor veio antes.
Ainda sonho com o dia que não dependerei de absolutamente ninguém pra ser feliz, e enquanto esse momento não chega, me satisfaço em simplesmente precisar menos de você. Esperar pouco. Sentir, na sua falta, a liberdade de ser eu mesma sem travas, sem poréns.
Admito que tenho algum receio ainda. Receio de não ser mais amada, nem por você nem por ninguém. Medo de que essas desilusões reflitam negativamente em quem permanecerá ao meu lado. Quase pânico de perder, enfim, uma parte de mim.
Mas me abro pro que está dentro e me tranquilizo um pouco. Já consigo te sentir distante sem que meu estômago se revire. Talvez, dessa vez, as coisas que você faz quando está longe nem sequer me façam sangrar. Ou, quem sabe, isso tudo volte e eu desague mais um pouco.

*

E enfim o momento de aproveitar a raiva e seguir a vida. Dar vazão aos sentimentos ruins que guardei pra te ter por perto. Momento de movimento, de fluidez, de fervor. E já que a lucidez não me abandona mais, aproveito o meu orgulho de ser eu mesma e vou só pros lados que eu quero.


Não te desejo a mesma felicidade, mas só por agora. Quero que você se arrependa, mas não o bastante pra tornar sua ausência mais complicada. Quero paz pra você, mas não antes dela me preencher.
Então me alimento do rancor até que ele não me caiba. Depois disso... depois.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Dejà vu"

Então faço minhas as palavras dela:

"Ele vai bater na porta qualquer dia, pensou Elena, vai bater na porta e ela vai abrir. E ele vai falar qualquer coisa sobre outra mulher. Caras como ele são sempre assim, falam em liberdade e amores, mas ao primeiro pedido da moça bonita deixam tudo para trás e te largam sem pedir desculpas. Depois batem na sua porta. Contam sete histórias e meia de como não tiveram escolha. De como foram forçados a tentar. Caras como ele sempre deixam mulheres como Elena para ficar com outras, mais retilíneas. E quando menos se espera ela está sozinha. A gente sempre fica sozinha quando não exige nada. 

Mas ele vai bater na porta e ela vai querer dizer que caras como ele são sempre assim. Vão tentar a sorte com as moças corretas e só correm de volta pro seu colo quando ficam devastados delas. Esperam sempre não voltar, mas carregam dentro de si a segurança de poder fazê-lo. Fácil assim, Elena diria, antes de fechar a porta para sempre. Você não tinha que escolher, mas escolheu mesmo assim. Diria também que está cansada de ficar para depois, de ser clandestina na vida deles.

Mas quando chegar a hora, e ele bater na porta, Elena vai abrir com uma cara de pesar, vai calar a boca dele com um gesto leve, já ouviu todas as histórias, já sabe do que se trata. Vai sentir vontade de vomitar só de pensar em ouvir de novo. Vai deixar ele entrar e acolhê-lo num abraço. E ele vai ficar até encontrar outra que lhe peça para abandona-la. Porque é como eles são. Os caras como ele. E as mulheres como ela."